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quinta-feira, 30 de junho de 2011

O MINISTERIO DE DANÇA NA IGREJA

O uso da dança nos cultos religiosos remonta à própria origem da dança. Seu uso na liturgia cristã, principalmente a protestante, é muito recente e polêmico. Embora a dança faça parte da liturgia do Antigo Testamento e não haja nada no Novo Testamento que seja contra sua utilização no culto cristão, muitos levantam objeções à participação da dança na adoração coletiva do Povo de Deus, quais sejam:
-  Não há base bíblica para a utilização da dança no culto;
-  Não há base bíblica para um ministério de dança;
- Há maus testemunhos concernentes a pessoas envolvidas com um ministério de dança.
Para essas objeções, no entanto, há respostas adequadas à luz da Bíblia, da História e da Teologia.
1. A DANÇA NA BÍBLIA E EM SEU CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL
Estátuas de músicos de terracota: veja-se a mulher com o adufe.
Um dos equívocos mais comuns ao se procurar fundamentar ou não na Bíblia o uso da dança na liturgia da igreja de hoje é o apenas caçar as referências à palavra dança e seus cognatos (“dançavam“, “dançou“, etc.). Na maioria das vezes, a menção bíblica a instrumentos de percussão (adufes, tamborins, címbalos, etc.) indica também o ato de dançar já que a função desses instrumentos era marcar o ritmo da dança. Um exemplo: “Os cantores iam adiante, atrás, os tocadores de instrumentos de cordas, em meio às donzelas com adufes” (Sl 68.25). Donzelas com adufes, isto é, tambores, são uma clara indicação de dança (Êx 15.20;1Sm 18.6). Pode-se incluir também a flauta (Mateus 11.17: “Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não pranteastes“). A Arqueologia tem descoberto nas terras bíblicas várias estatuetas de terracota que ilustram mulheres com instrumentos de percussão.
Também a expressão “saltar de júbilo/alegria” pode indicar “dançar” como em Eclesiastes 3:4 (“tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria“) onde a expressão é traduzida por “dançar” na Septuaginta [1](“orchesastai“, dançar) e na Versão Brasileira[2] (“tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar“).
A dança, isto é, a expressão de alegria por movimentos rítmicos dos membros do corpo ao acompanhamento musical, é mencionada na Bíblia como parte da vida social e da adoração do povo de Deus. Não podemos nos esquecer que a vida social dos israelitas, o povo de Deus da Antiga Aliança, era toda regulada pela Lei divina não havendo uma grande separação entre o cultural e o religioso, entre o social e o espiritual. Como registro de dança como evento meramente social temos os exemplos: Jz 21.21, 23; 1Sm 18.6; Jó 21.11; Ec 3.4; Mt 11.17; Mt 14.6; Lc 15.25. Embora não apareça a palavra dançar em Ct 3.11; Is. 61.10; Gn. 24.61, a dança está implícita nos costumes de casamento aí aludidos: a dança era feita de maneira processional até a casa do noivo pela noiva e suas damas. Mais tarde na cerimônia havia uma tradicional dança em volta do noivo e da noiva.
Estranhamente, há pessoas que insistem em dizer que a dança não era usada no culto a Deus. Contra isso há as claríssimas evidências bíblicas:
Êx 15.20,21 – A dança de Miriam e das mulheres israelitas foi feita em louvor a Deus. Ao lado, ilustração de Miriam e as israelitas dançando.
2Sm 6.1-23 – O translado da arca da Aliança foi um ato de culto e não um evento social: foi perante o Senhor que Israel e o Rei Davi se alegraram (vv.5, 21).
Sl 81.1-3 – A Neomênia (Festa da Lua Nova) era celebrada com tamborins, portanto, com danças.
Sl 68.24-29 – Num cortejo/procissão de culto ao Senhor é mencionada a presença de donzelas com adufes, uma clara indicação de dança litúrgica.
Sl 149.3 – O texto convida imperativamente que se louve a Deus com dança. A versão que traz “flauta” em vez de “dança” não está correta de acordo com o texto original (maĥul, “dança” em hebraico) e outras traduções.
Sl 150.4 – O salmo é um convite imperativo a todos os seres vivos de louvar a Deus com os instrumentos musicais e com dança.
A dança de Miriam
Em síntese, o Antigo Testamento registra que a dança foi usada pelo povo de Deus para celebrar acontecimentos familiares, sociais e cultuais, isto é, foi empregada também na adoração a Deus.
No Novo Testamento só encontramos referências diretas a dança em poucas passagens e se referem claramente a eventos sociais (Mt 11.17; Mt 14.3; Mc 6.22; Lc 7.32; Lc 15.25). Mas há referências indiretas, pois o Novo Testamento registra muitas festas sociais e religiosas dos judeus das quais participavam Jesus e os primeiros cristãos, os quais eram judeus. Por exemplo, o casamento, que era uma festa com danças, dele participou Jesus e seus discípulos(Jo 2.1-11). Nas festas religiosas que tinham dança, como a dos Tabernáculos, evidentemente Jesus e os primeiros cristãos, como participantes da vida religiosa judaica, também dançavam. Em aramaico, a língua semítica falada por Jesus, exultar e dançar são referidos pela mesma palavra; sendo assim a New English Bible (a Nova Bíblia Inglesa) traduz Lucas 6.23 (“rejoice and dance for joy“) por “alegre-se e dançe de alegria.” Original grego traz skirtesate, isto é, saltar, refletindo assim, a língua materna de Jesus.
O fato do Novo Testamento não mencionar a dança como expressão de adoração não é surpreendente, já que o mesmo não especifica nenhuma liturgia, embora fale de adoração e de sua essência. Nada no Novo Testamento proíbe a dança como expressão de adoração a Deus.
2. MINISTÉRIO DE DANÇA
Embora o povo de Deus no Antigo Testamento incluísse a dança na sua adoração a Deus e o Novo Testamento não a proíba, algumas pessoas são contra não só quanto à utilização da dança na adoração quanto mais ainda em relação a existência de um ministério voltado para a dança. Dizem que ainda que o Antigo Testamento apóie a dança como uma expressão de adoração, ele não serve para dar apoio a tal ministério hoje; além disso, o Novo Testamento nada fala de danças na adoração cristã muito menos de um ministério de dança.
Quanto a isso, cumpre observar o seguinte:
O Novo Testamento tem cinco listas de dons e ministérios (1Coríntios 12.28; 1Coríntios 12.29-30; 1Coríntios 12.8-10; Romanos 12.6-8; Efésios 4.11; 1Pedro 4.10,11). Muitos dons e ministérios são repetidos, outros citados uma só vez, outros não tem títulos sendo antes ações: exortar, contribuir, exercer misericórdia ou simplesmente servir como expressa o texto de 1Pedro 4.11. Disso se conclui que o Novo Testamento não tem uma lista definitiva e limitada do número de ministérios que deve haver na igreja de acordo com sua necessidade. O diaconato não surgiu de uma revelação divina; houve a necessidade de se levantar pessoas para essa função (At 6.1-7). Tanto é assim que todas as denominações têm ministérios ou departamentos que não são citados no Novo Testamento: Ministério de Música, Tesouraria, Ministério Infantil, Sociedades Femininas, Masculinas, Círculo de Oração, Mocidade, etc. Quantas são as necessidades da igreja tantos são seus departamentos ou ministérios. E todos terão base bíblica já que a essência de um ministério é um serviço prestado a Deus e aos seus. Dançar, como qualquer arte, é um dom divino. “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tiago 1.17). Portanto podemos utilizar esse dom a serviço do Evangelho: “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1 Pedro 4.10).Em síntese, o fato do Novo Testamento não falar de um ministério de dança não impede que haja tal ministério da igreja.
Ministras de dança em culto do Projeto Vida Nova de Irajá
O fato de não haver menção no Novo Testamento à dança na liturgia cristã não impede desta ser utilizada, já que o mesmo não fala também de instrumentos musicais e eles também são utilizados na adoração cristã hoje. No Novo Testamento há espaço para qualquer expressão litúrgica desde que haja decência e ordem (1Co 14.40).
O fato da dança ter maior referência no Antigo Testamento do que no Novo, não impede seu uso na adoração cristã; o mesmo sucede com o ministério de música já que no Novo Testamento também não há referência a este ministério, e sim no Antigo Testamento. Tal é a influência do ministério de música do Antigo Testamento sobre os ministérios de música atuais que o músico cristão é chamado de “levita”. Isso não tem problema já que os primeiros cristãos usaram a linguagem do Antigo Testamento para entender, explicar, aplicar e anunciar Jesus Cristo e sua obra bem como para definir a própria identidade cristã: novo Israel, eleitos, santos, remidos, povo peculiar (Gl 6.16; 1Pe 2.9-10; Tt 2.14, etc.).
Tendo em vista o acima dissertado, a dança tem sim o seu espaço na igreja cristã de hoje como expressão de adoração e estratégia evangelística. Tal uso pressupõe não apenas a vontade de dançar, mas também aptidão técnica, trabalho em equipe, aprovação e supervisão pastoral, ou seja, a utilização contínua da dança na igreja deve ser organizada como um ministério.
3. MAUS TESTEMUNHOS
Há quem diga que há muitos maus testemunhos em relação ao ministério de dança havendo mais “salomés” do que “mirians”. Salomé e Miriam são duas referências bíblicas na área da dança. Salomé, segundo o historiador judeu Flávio Josefo, era a filha de Herodias que dançou para satisfazer a cobiça de Herodes e que resultou na morte de João Batista (Mt 14.13-11). Miriam era profetisa e irmã de Moisés e dançou em louvor a Deus (Ex 15.20,21). Assim como há maus pastores, diáconos, músicos, assim há maus ministros de dança. Não se pode julgar uma prática pelo mau uso dela; se for assim não teremos mais nenhum ministério na igreja. Em entrevista à revista evangélica Enfoque Gospel(julho/2008) sabiamente afirma Isabel Coimbra , referência em dança litúrgica, que “pessoas santas e ungidas produzirão entre seus frutos bons, danças santas e ungidas! Quando isso acontece, as resistências vão caindo e, em vez de opositores, vamos ganhando intercessores!”[3]. Se há aqueles em que “liras e harpas, tamboris e flautas e vinho há nos seus banquetes; porém não consideram os feitos do SENHOR, nem olham para as obras das suas mãos“(Is 5.12), há aqueles que como Davi dançam “com todas as suas forças diante do SENHOR“(2Sm 6.14).
Referência: ministra de dança Isabel Coimbra
4. CONCLUSÃO
Podemos concluir que não há nenhum impedimento bíblico para o uso da dança na adoração cristã e nem da organização dela em um ministério. Não podemos esquecer o alvo de todo e qualquer ministério: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10.31).
NOTAS:
[1] Septuaginta é o nome da versão da Bíblia hebraica para o grego koiné, língua franca do Mediterrâneo oriental nas épocas helenística e romana. É a mais antiga tradução da Bíblia e foi realizada em etapas entre o terceiro e o primeiro século a.C. em Alexandria. A tradução ficou conhecida como a Versão dos Setenta (ou Septuaginta, palavra latina que significa setenta, ou ainda LXX), pois reza a tradição que setenta e dois rabinos trabalharam nela e teriam completado a tradução em setenta e dois dias. A Septuaginta foi usada como base para diversas traduções da Bíblia e ainda é referência na crítica textual do Antigo Testamento.
[2] A chamada Tradução Brasileira da Bíblia (também conhecida como Versão Brasileira ou Edição Brasileira) foi editada no início do século XX. Entre as características de sua tradução são a literalidade ao texto utilizado e a colaboração de vários eruditos brasileiros dentre eles Rui Barbosa, José Veríssimo, Heráclito Graça e Eduardo Carlos Pereira.
[3] Veja a matéria Pode ou não pode de Diana Duque em http://www.revistaenfoque.com.br/index.php?edicao=84&materia=1121
REFERÊNCIAS:
BÍBLIA ONLINE 3.0: Módulo Avançado. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1 CD-ROM.
MATOS, Gisela M. Kohl. Propostas de Dança na Bíblia. Disponível em:
http://www.dancapelasnacoes.com.br/v3/estudos/detalhes.aspx?idEstudo=15
MONRABAL, María Victoria Triviño. Música, Dança e Poesia na Bíblia. São Paulo: Paulus, 2006.
QUICK, Elizabeth. Women’s Prophetic Drumming Tradition.Disponível em:
http://bethanymagdalene.blogspot.com/2007/02/ancient-and-contemporary-female.html

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